Internacionalização Entrada nos EUA exige estrutura além da estratégia de vendas
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Franqueada relata adaptação cultural, importação de insumos e a receptividade do público americano e hispânico.
ECON News
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O mercado de food service nos Estados Unidos é um dos mais competitivos do mundo, exigindo dos empreendedores imigrantes não apenas capital, mas uma capacidade ímpar de adaptação cultural e logística. Marta Bolognesi, franqueada e empreendedora da Sodiê Doces, é um exemplo de sucesso nessa travessia. Após consolidar duas lojas da marca no Brasil, ela aceitou o desafio de participar da expansão internacional da franquia, inaugurando uma unidade em Orlando, Flórida, em meio às restrições da pandemia de 2020. Em entrevista, Marta compartilha as minúcias técnicas e os obstáculos de manter o padrão de uma confeitaria artesanal brasileira em solo americano, desde a importação de ingredientes específicos até a educação do paladar local.
A trajetória de Marta Bolognesi com a Sodiê Doces começou há oito anos no Brasil, impulsionada por sua paixão pessoal pela culinária e pelo desejo de deixar o mundo corporativo. "Tem que ser alguma coisa que a gente gosta de fazer, porque quando você vai montar um negócio, você trabalha de domingo a domingo. Não é fácil", relembra a empreendedora. O sucesso no Brasil a credenciou para o passo internacional quando a fundadora da marca decidiu expandir para os EUA. No entanto, o processo coincidiu com o bloqueio de fronteiras causado pela Covid-19. Para chegar a Orlando a tempo de acompanhar a obra, Marta precisou cumprir uma quarentena angustiante de 15 dias no México. A inauguração ocorreu em setembro de 2020, marcando o início de um profundo choque de adaptação operacional.
O maior desafio técnico enfrentado por Marta nos EUA não foi a burocracia, mas a padronização dos insumos. A confeitaria americana difere drasticamente da brasileira, tanto em escala quanto em ingredientes. "Aqui é tudo diferente: o peso do ovo é diferente, o açúcar é diferente, a farinha é diferente. Se eu vou fazer com todos os produtos daqui, eu não vou oferecer a mesma experiência que o cliente tem no Brasil", explica a franqueada. Para contornar esse obstáculo, a solução foi complexa e custosa: a importação direta. A loja traz do Brasil leite condensado, creme de leite e chocolates da Nestlé, uma vez que o mercado americano foca em chocolates para consumo direto, e não para uso profissional na culinária. Essa logística exige uma programação com muita antecedência, mas garante a textura macia (soft) e o sabor autêntico dos bolos artesanais.
No aspecto cultural, a Sodiê Doces em Orlando atua em um processo de transição. Inicialmente focada em matar a saudade do público brasileiro, que compunha 100% da clientela, a loja hoje atende cerca de 40% de público hispânico e americano. "O americano é aventureiro, mas fica meio reticente. Você tem que dar uma provinha para ele; quando ele come e a gente dá um brigadeirinho, ele vai embora e daqui a pouco volta", diverte-se Marta. Além do paladar, o comportamento de consumo é distinto. No Brasil, o foco são grandes festas e bolos monumentais. Nos EUA, o americano prefere comemorações rápidas em quiosques de parques, com horário rígido para acabar. "Eles são bem cartesianos nisso. A festa é menor e mais reservada", observa.
Apesar dos desafios logísticos e da adaptação cultural — incluindo o alto custo da mão de obra artesanal nos EUA —, o ambiente de negócios americano oferece contrapartidas atrativas. "É menos burocracia para abrir a empresa. E a relação de trabalho é diferente: aqui não tem o peso trabalhista que tem no Brasil, o salário é justo e as pessoas conseguem ganhar para o seu sustento", avalia a empreendedora.
A experiência de Marta Bolognesi comprova que a internacionalização de marcas brasileiras exige resiliência para superar não apenas as distâncias geográficas, mas as diferenças de paladar e comportamento. Mesmo com as dificuldades do processo migratório e da gestão em outro idioma, ela é enfática ao avaliar a jornada: "Faria tudo de novo com certeza. É gostoso quando você trabalha com uma coisa com a qual se identifica e que agrada as pessoas. É um país muito bom de viver". Localizada no bairro de MetroWest, um reduto brasileiro em Orlando, a Sodiê Doces sob a gestão de Marta não apenas exporta bolos e coxinhas, mas consolida a capacidade do empreendedorismo nacional de encantar e conquistar novos mundos.
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