Prevenção, nutrição e os contrastes no cuidado pediátrico entre o Brasil e os Estados Unidos

A pediatra Juliana Almeida analisa desafios da saúde nos EUA e os impactos da alimentação industrial na infância.

ECON News

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20 de fevereiro de 2026
Prevenção, nutrição e os contrastes no cuidado pediátrico entre o Brasil e os Estados Unidos

A saúde infantil é um pilar fundamental para o desenvolvimento de qualquer sociedade, mas a forma como cada país aborda a pediatria revela contrastes profundos em suas culturas e sistemas de saúde. Juliana Almeida, pediatra com mais de duas décadas de experiência e cofundadora da Marque de Almeida Serviços Médicos, vivencia essas diferenças diariamente. Com formação no Brasil e pós-graduação na Universidade de Boston, ela atua como uma ponte de conhecimento para famílias brasileiras e americanas. Autora do recém-lançado livro Crescer com Saúde (Growing Healthy), Juliana participou do evento Econ em Orlando, onde compartilhou sua visão sobre a importância da prevenção, o impacto do aleitamento materno e as armadilhas nutricionais que ameaçam o futuro das novas gerações em ambos os países.

A motivação para escrever Crescer com Saúde nasceu da constatação de que o acesso à medicina humanizada é fisicamente limitado. "No consultório, temos uma agenda limitada. Com o livro, conseguimos alcançar uma gama de pessoas que não conseguimos no dia a dia. O objetivo é compartilhar conhecimento e ajudar as famílias, especialmente nos Estados Unidos, onde o acesso à medicina é um pouco mais restrito", explica a pediatra. A obra aborda desde o planejamento gestacional até a rotina escolar, enfatizando que preparar o corpo e a mente para receber uma criança é o primeiro passo para prevenir doenças crônicas como diabetes e hipertensão no futuro.

Ao comparar a pediatria brasileira com a americana, Juliana destaca uma diferença cultural estrutural: o Brasil possui uma forte cultura de profilaxia. "Nós temos o cuidado do check-up anual, do vermífugo. Nos Estados Unidos, o acesso é mais restrito devido aos seguros de saúde, que têm suas próprias limitações", observa a médica. Além do fator financeiro, ela aponta que a relação médico-paciente no Brasil é mais próxima e acolhedora, com acesso facilitado via WhatsApp, enquanto o sistema americano, apesar de sua excelência tecnológica e adesão rigorosa a protocolos baseados em dados, muitas vezes peca na prevenção e na proximidade humana devido ao ritmo de vida acelerado (time is money).

A nutrição infantil é outro campo onde os contrastes são gritantes e as armadilhas são universais. Juliana alerta que o principal erro dos pais é ceder à comodidade do dia a dia. "Quanto mais cedo iniciamos os industrializados, alimentos com corantes, conservantes e hormônios, mais prejudicamos a saúde do futuro adulto. Antes dos dois anos de idade, o ideal seria não ter contato com nada de doce", adverte a especialista. Ela ressalta que o Brasil possui uma cultura mais sólida de aleitamento materno — que oferece benefícios imunológicos e de vínculo afetivo — e de refeições feitas em casa. Em contrapartida, nas escolas americanas, o almoço fornecido frequentemente se resume a hambúrgueres, tenders (tiras de frango) e pizza. "A nossa alimentação no Brasil é mais variada, rica em proteínas e fibras, o que faz diferença na digestão", compara.

Para os profissionais de saúde brasileiros que sonham em atuar ou se especializar no mercado americano, Juliana oferece um conselho prático baseado em sua própria trajetória acadêmica: imersão e preparo. "O primeiro passo é estudar muito. Fazer a validação do diploma certinho, vincular-se a universidades americanas e buscar oportunidades de observership (estágio observacional). A maior parte das universidades oferece cursos até gratuitos que podemos fazer do Brasil para nos familiarizarmos", recomenda a autora. Ela reforça que dominar o inglês e compreender as nuances culturais entre os dois sistemas é vital para transitar com sucesso na medicina internacional.

A atuação de Juliana Almeida evidencia que a medicina moderna exige mais do que conhecimento técnico; exige a capacidade de traduzir a ciência em práticas cotidianas acessíveis para as famílias. Seja orientando pacientes sobre medicamentos isentos de prescrição nas farmácias americanas ou promovendo o ato de cozinhar com as crianças no Brasil, seu trabalho busca unificar o melhor dos dois mundos: a proximidade afetiva da medicina brasileira e o rigor científico dos protocolos americanos. Com o lançamento do seu livro Crescer com Saúde, já aceito na University of Central Florida (UCF), a pediatra consolida seu legado de que a informação de qualidade é a principal vacina contra os desafios do desenvolvimento infantil no século XXI.